A plataforma de cursos que você não abre desde março: uma escavação arqueológica da sua culpa digital
Existe um lugar específico no inferno digital que ninguém fala em voz alta mas todo mundo conhece: a tela de login de uma plataforma de cursos online que você pagou, acessou uma vez pra ver como era a interface, e nunca mais abriu.
Você sabe a senha. Você sabe o nome do curso. Você sabe vagamente o que ia aprender lá dentro. O que você não sabe é quando — ou se — você vai de fato aprender.
E enquanto essa dúvida existe, o ícone do app fica ali no seu celular, entre o Duolingo (que você também não abre) e o app do banco (que você abre demais, infelizmente).
O momento da compra: quando tudo parecia possível
Para entender o fenômeno, é preciso revisitar a cena do crime. Porque a compra de curso online não acontece num vácuo. Ela acontece num contexto específico, quase sempre identificável.
Tem o curso comprado no domingo à noite, quando a semana que começa amanhã parece uma oportunidade de reinvenção total. Você vai aprender design gráfico. Vai mudar de área. Vai desenvolver uma habilidade que vai transformar sua relação com o trabalho. Na segunda de manhã, o despertador toca e a reinvenção é adiada pra próxima semana.
Tem o curso comprado na Black Friday, que é uma categoria própria de arrependimento nacional. O desconto era de 90%. Noventa por cento. Seria um crime não comprar. Você comprou quatro. Você não abriu nenhum, mas economizou muito dinheiro em cursos que nunca faria pelo preço cheio também.
Tem o curso comprado depois de uma crise profissional, quando seu chefe disse algo, ou uma reunião foi mal, ou você leu uma vaga de emprego e percebeu que não tinha metade das qualificações. O curso foi uma resposta emocional imediata. Um gesto de agência. Uma forma de dizer: eu estou fazendo algo a respeito. Você estava. Por cinco minutos.
E tem o curso comprado porque um influencer indicou, que é o mais perigoso de todos porque vem embalado com testemunho, prova social e um link de desconto que expira em 24 horas. A urgência artificial funcionou. O curso está na sua conta. O influencer tem sua comissão. Todo mundo ganhou exceto você.
A arqueologia das plataformas
Se você fizer um levantamento honesto agora — e eu recomendo que não faça porque pode ser perturbador —, vai encontrar uma distribuição de cursos em pelo menos três plataformas diferentes, com progresso variando entre 0% e 12%.
A Hotmart guarda aquele curso de copywriting que você comprou porque queria escrever melhor nas redes sociais. Você assistiu à aula zero, que é a aula de boas-vindas onde o professor fala o que você vai aprender. Então a vida aconteceu.
A Udemy tem o curso de Excel avançado que parecia fundamental pra sua carreira. Você completou o módulo 1 de 14. O módulo 1 era sobre como abrir o Excel.
A Coursera tem aquele certificado de uma universidade americana que você iniciou porque parecia impressionante no LinkedIn. Está em 3%. O certificado não vai aparecer no seu LinkedIn.
E tem ainda aquela plataforma de um produtor independente que você nem lembra mais o nome, que você acessa pelo link que está soterrado em algum email de março, cujo curso provavelmente ainda existe num servidor em algum lugar, esperando.
Por que a gente não deleta e não termina
Aqui mora o coração do fenômeno: você não termina os cursos, mas também não cancela, não pede reembolso, não deleta o app. Você convive com eles num estado de coexistência tensa, como aquele livro de 800 páginas que está no criado-mudo há dois anos com o marcador na página 47.
A razão é que deletar seria encerrar oficialmente uma possibilidade. Enquanto o curso está lá, você tecnicamente ainda pode aprender aquilo. Você está, em algum sentido muito frouxo da palavra, "fazendo o curso". É uma procrastinação com otimismo embutido.
No Brasil, isso tem uma dimensão extra: a gente compra conhecimento como forma de se sentir produtivo sem necessariamente ser produtivo. É a versão contemporânea de comprar livro de dieta — o ato de adquirir já traz uma sensação de movimento, de intenção, de progresso. O conteúdo em si é quase secundário.
E existe uma culpa específica nisso que é diferente de outras culpas. Não é a culpa de ter feito algo errado. É a culpa de não ter feito algo que você planejou fazer. É a culpa do potencial não realizado, que é talvez a mais brasileira e mais geracional de todas as culpas.
O certificado que você nunca vai colocar no LinkedIn
Existe uma fantasia paralela que acompanha cada compra de curso: a do certificado. Você já imaginou vagamente como vai ficar na seção de certificações do seu perfil. Você talvez tenha até pensado em como vai escrever a legenda do post de conclusão.
O post nunca foi escrito. O certificado nunca foi emitido. Mas a fantasia foi real o suficiente pra justificar a compra naquele momento.
E sabe o que é curioso? Às vezes o valor real não estava no conteúdo do curso, mas exatamente nessa fantasia. No momento em que você se imaginou como alguém que aprende, que investe em si mesmo, que está em movimento. Esse momento existiu. Você o viveu.
Talvez seja isso. Talvez a compra de cursos online seja, acima de tudo, uma forma de visitar uma versão de si mesmo que você gostaria de ser — mais disciplinada, mais curiosa, mais em desenvolvimento constante. A visita dura o tempo de inserir os dados do cartão. Mas ela acontece.
O que fazer (além de terminar o curso, que não vai acontecer)
Uma sugestão concreta: faça as pazes com o fato de que você é uma pessoa com intenções maiores que sua disponibilidade de atenção. Isso não é falha de caráter. É a condição humana em 2024, amplificada pelo excesso de oferta de conteúdo e pela escassez real de tempo e energia.
Se quiser um exercício prático: antes de comprar o próximo curso, pergunte-se não quero aprender isso? — porque a resposta vai ser sempre sim — mas vou abrir isso na semana que vem?. Se a resposta honesta for não, o dinheiro pode ir pra outro lugar.
E se você realmente quiser terminar algum dos que já tem: escolha um. Só um. O menor. O mais fácil. Termine esse. Não pra colocar no LinkedIn. Só pra provar pra você mesmo que é possível.
O Excel avançado vai continuar te esperando. Ele tem paciência. É um software de planilhas. Não tem o que fazer.