Nem casado nem solteiro: o purgatório afetivo de quem não quer nenhuma das duas opções
Tem uma pergunta que me persegue com a frequência de boleto: o que os casados fazem no fim de semana?
Não estou sendo irônico. É uma dúvida genuína. Meus amigos que se estabeleceram em relacionamentos estáveis parecem ter descoberto algum código secreto de como ocupar 48 horas seguidas com a mesma pessoa sem entrar em colapso existencial. Eles postam foto em feira orgânica. Montam móvel da IKEA com expressão satisfeita. Falam em "a gente" com uma naturalidade desconcertante.
Enquanto isso, eu estou aqui tentando decidir se respondo aquela mensagem do Tinder de três dias atrás ou se finjo que meu celular caiu no mar.
O problema com o Tinder (e com todas as redes)
Algum dia alguém vai escrever um livro acadêmico sobre o que os aplicativos de relacionamento fizeram com a capacidade humana de se conectar. Enquanto esse livro não chega, vou resumir minha experiência pessoal: é exaustivo.
Não porque as pessoas sejam ruins — a maioria é completamente razoável. É que o formato transforma relacionamento em processo seletivo, e eu já tenho processo seletivo suficiente na minha vida profissional. A ideia de otimizar minha foto de perfil para maximizar matches, calibrar o humor das mensagens para parecer interessante mas não desesperado, e ainda assim estar disponível para a conversa morrer no segundo dia... não, obrigado.
E as redes sociais em geral não ajudam. Tem uma geração inteira de pessoas que aprendeu a se apaixonar por uma persona cuidadosamente editada antes de se apaixonar pela pessoa. Você curte o feed de alguém por seis meses, constrói uma narrativa completa na sua cabeça, e quando finalmente encontra a pessoa descobre que ela reclama do barulho do restaurante e não gosta de cachorro.
O coração parte em pedaços. O algoritmo segue te mostrando o feed dela por mais três meses.
O que os casados sabem que eu não sei
Voltando à questão central: o que acontece depois que duas pessoas decidem que vão ficar juntas de forma oficial e presumivelmente permanente?
Fiz uma pesquisa não científica com amigos casados. Os resultados foram perturbadores na sua normalidade:
- Eles assistem série juntos (mas às vezes em telas diferentes, no mesmo sofá)
- Eles discutem sobre temperatura do ar-condicionado com uma intensidade que antes reservavam para debates políticos
- Eles têm opiniões firmes sobre marcas de papel toalha
- Eles planejam viagens com seis meses de antecedência e sentem prazer nisso
- Eles dormem cedo num sábado e acordam descansados num domingo e isso não os deprime
Lendo essa lista, minha reação inicial é: que horror. Minha reação secundária, que aparece uns três segundos depois com constrangimento: isso parece muito bom na verdade.
E é aí que mora o problema.
A ansiedade de estar sozinho que você não admite em voz alta
Existe um discurso muito bem construído sobre a liberdade de ser solteiro que a gente reproduz com convicção em almoços de família e happy hours com amigos. Estou curtindo meu momento. Estou me descobrindo. Não preciso de ninguém para ser completo.
Tudo isso é verdade. E também é verdade que às vezes você chega em casa depois de um dia longo, olha para o apartamento silencioso, e sente uma coisa que não é exatamente solidão mas está no mesmo bairro.
Não vou chamar de solidão porque a palavra carrega peso demais e implica um problema que precisa ser resolvido. Vou chamar de ruído de fundo existencial — aquela frequência baixa que fica tocando quando você está sozinho demais tempo seguido e percebe que não tem com quem dividir a anedota engraçada que aconteceu na fila do banco.
O problema é que admitir isso em voz alta parece uma derrota. Como se você estivesse confirmando que a liberdade que tanto defendeu era na verdade uma estratégia de defesa elaborada. O que talvez seja. Mas não precisa ser tratado como escândalo.
Por que casar ainda parece uma decisão de outro século
Ao mesmo tempo — e aqui está a beleza da contradição que define os 29 anos — a ideia de casamento formal ainda ativa algo próximo do pânico.
Não é que a gente não acredite em amor. A gente acredita demais, na verdade. O problema é que acreditar em amor eterno e assinar um contrato jurídico são atos de naturezas muito diferentes, e misturar os dois parece uma gambiarra civilizatória que sobreviveu além do prazo de validade.
Sem contar que casar implica uma série de conversas que a geração de quase 30 anos foi treinada a evitar: sobre dinheiro, sobre onde morar, sobre ter ou não filhos, sobre o que acontece quando um dos dois quiser coisas diferentes. São conversas de adulto que exigem maturidade emocional, e maturidade emocional é um recurso que a gente distribui de forma muito irregular.
O purgatório tem wi-fi, pelo menos
Então a gente fica aqui, nessa zona intermediária que não tem nome oficial mas todo mundo reconhece: velhos demais para achar que relacionamento vai acontecer por acaso numa festa, jovens demais para encarar o processo de construir algo com intenção e paciência.
Não queremos mais a intensidade dramática dos relacionamentos dos 22 anos, onde tudo era urgente e qualquer desentendimento parecia o fim do mundo. Mas também não chegamos no ponto de querer a estabilidade previsível que os casados descrevem com aquela calma irritante de quem já resolveu o problema.
Estamos, em resumo, esperando uma terceira opção que ninguém criou ainda.
Enquanto isso, o Tinder vai ficando aberto numa aba esquecida do celular, os casados vão montando móvel da IKEA com expressão satisfeita, e a gente vai ficando cada vez mais experto em responder "estou no meu momento" quando a tia pergunta na reunião de família.
Não é o ideal. Mas tem wi-fi.
E às vezes, no domingo à tarde, quando o silêncio do apartamento está no volume certo, parece até bom.